AVENTURA NOS CAMINHOS DE SANTIAGO

 

... caminho Português a pé

PEREGRINAÇÃO A PÉ A SANTIAGO DE COMPOSTELA

(DE VALENÇA A SANTIAGO EM QUATRO ETAPAS)

 

RELATO DAS JORNADAS

 

1º Dia - 28 de Abril de 2007

6h00 em Aveiro!


Começaram a chegar à estação de comboios os primeiros peregrinos, bem equipados, com grandes mochilas às costas e bastante animados, mal disfarçando a excitação própria de quem está menos habituado a tais andanças.

Chegado o comboio, lá embarcámos em direcção ao Porto. Pelo caminho, em Ovar, mais dois se juntaram ao grupo que nesta altura perfazia dezassete aventureiros.

Finalmente atravessámos o Douro e chegámos a Campanhã.

Após alguma espera na estação, lá nos dirigimos ao comboio que nos levaria a Valença, local escolhido para início da Peregrinação.

Partimos, não sem os retardatários do costume chegarem em cima da hora, e em Famalicão completámos finalmente o grupo, que ao todo era composto por vinte e três elementos.

Até Valença nada de especial, a não ser a impaciência de iniciar a longa caminhada.


10h30 em Valença

Chegados à estação de Valença começámos logo por carregar com as volumosas mochilas e dirigimo-nos à bilheteira da CP com o objectivo de carimbar as Credenciais de Peregrino, com a indicação da data e do local do início da Peregrinação.

Depois procurámos em vão um local para comer, pelo que decidimos partir em direcção a terras de Espanha.
Passámos na velha ponte metálica sobre o Rio Minho e lá chegámos a Tui, onde aproveitámos para comer os primeiros de muitos bocadillos de quejo e jamon.

Retemperadas as forças iniciámos o caminho com uma foto de grupo junto a um marco que indica o Caminho Português (e que marca a distância a que nos encontrávamos de Santiago – 115,454 metros, não contando com o que já tínhamos feito desde a estação de Valença).

Em seguida dirigimo-nos à catedral de Tui para mais uma carimbadela na Credencial. Estava na hora de começar o caminho a sério.

Tínhamos como objectivo chegar a O Porriño (num total de 19,4 Km a percorrer – dados do GPS do Borges), e assim fizemos.

Ninguém se vai esquecer da enorme recta que passa pela zona industrial e que parece interminável!

Foi aliás nesse maldito alcatrão que começaram os problemas nos pés de muitos de nós.
Chegados ao Albergue, banhos tomados e camas reservadas, fomos procurar um local onde tomar uma quente e boa refeição.

E aqui começou a aventura da noite!

Primeiro foi com grande dificuldade que encontrámos um local aberto e quando encontrámos, tudo nos foi acontecendo.

No restaurante Louriña fomos recebidos por uma prestável compatriota que perante uma horda de esfomeados logo tratou de chamar a cozinheira ausente.

Depois serviu um vinho tinto de qualidade muito duvidosa, intragável mesmo, e um branco, que orgulhosamente defendia ser de sua produção, mas que também não convenceu ninguém. Depois as manteiguinhas, de sabor exótico, que se verificou terem perdido a validade em 2004 e 2005. Finalmente a comida pareceu-nos não ser má, pelo menos não fez mal a ninguém.

De regresso ao albergue deu-se início ao tratamento de pés, bolhas, feridas, etc…

Dormir, foi outro desafio tal a sinfonia de “rugidos” e “roncos” e outros sons indesejados.

 

2º Dia – 29 de Abril de 2007

05h00 – Alvorada!
Preparar as coisas, pequeno-almoço e pernas ao caminho!


A jornada prometia ser longa e dolorosa (33,5 Km segundo o GPS mais famoso da peregrinação).

A primeira etapa decorria até Redondela de Galícia e levou toda a manhã para a percorrer.

Os pés doridos do dia anterior começaram a minar o ânimo dos peregrinos e ninguém ficou alheio à íngreme descida que antecedeu a chegada a Redondela.

Em Redondela sofremos as primeiras baixas no grupo, nada menos do que 6 peregrinos deram por terminada a sua participação na parte da caminhada, tendo seguido por táxi até Pontevedra, destino eleito para terminar esta jornada. Nas restantes etapas foram seguindo de comboio até aos próximos destinos, apoiando logisticamente os mais persistentes.

A realçar a importância deste apoio na concretização do objectivo a que todos nos propusemos.

Restava ao grupo que ficava colocar as botas a mexer porque a jornada era longa. Foi um dia bastante penoso com o alcatrão a massacrar pés, tornozelos e joelhos.

Finalmente Pontevedra e o albergue logo à entrada!

A Natália e os restantes já tinham marcado as camas e o restaurante. Assim, após o banhinho, lá demos por nós a coxear em direcção à estação de comboios, local onde ficava o tal restaurante. Pelo menos este sempre foi um bocadinho melhor que o do dia anterior.

Regressados ao albergue, montou-se o hospital de campanha e a Natália passou a tratar dos “enfermos, coxos e restantes inválidos”.

Dormir, mais uma vez, não foi fácil. Os “roncos” seguiam-nos de perto e, provavelmente, todos colaborámos um pouco, tal o cansaço.

 

3º Dia - 30 de Abril de 2007

05h00 – Alvorada!


Era a maior etapa de toda a peregrinação e as marcas do caminho já efectuado eram bem visíveis em grande parte dos elementos do grupo.

Para complicar a chuva tinha chegado em força na noite anterior.

Partimos em direcção a Caldas de Reis (23,3 Km) e de início até correu tudo bem. Depois começou a chover com alguma intensidade e lá aproveitámos um cafezito para nos abrigarmos e comer qualquer coisa.

Barriguinha recomposta, pernas ao caminho!

Este era bem mais bonito e agradável do que os das etapas dos dois dias anteriores, mas as dores começavam a ser insuportáveis e a etapa não ajudava muito porque, apesar de relativamente plana, era bastante longa.

Chegados a Caldas de Reis decidimos fazer uma longa paragem, almoçar e depois decidir o que fazer, dado que havia pessoas em dificuldade e ainda faltavam mais 19 Km para fazer até Padrón.

Entretanto a chuva caía com mais intensidade.

Sete elementos decidiram continuar até Padrón em táxi enquanto os restantes dez seguiriam a caminhar. Para evitar maior desgaste e uma chegada tardia, os que seguiam a pé deixaram as mochilas com os outros e levaram apenas o que fazia falta.

E assim se fez, provando-se ter sido uma excelente opção, porque com a chuva que se fez sentir e com o cansaço que cada um já tinha, a carga completa às costas teria criado muitos problemas.

Dos dez “duros”, oito chegaram a Padrón e dois foram recuperados por um táxi (nem vou dizer quem foram… eheheheheh).

Chegados a Padrón, já o grupo de apoio tinha providenciado alojamento num Hostal (o albergue estava cheio) e reservado lugar num restaurante.

Banhinho tomado, a Natália sempre com o hospital de campanha em alerta, e uma boa refeição com Polvo, Calamares e Lulas bem regada, animou o pessoal.

Depois uma noite bem dormida numa caminha confortável fez bem a diferença.

Entretanto a visita do irmão da Jacinta e o oferecimento do mesmo em levar as mochilas e os restantes materiais que não fossem necessários até Santiago (no seu carro) animou ainda mais as hostes.

 

4º Dia – 1 de Maio de 2007

06h00 – Alvorada!
Chegou o grande dia, aquele que todos ambicionavam, por ser o da chegada a Santiago de Compostela!

Carregámos as mochilas e materiais desnecessários para a etapa no carro do irmão da Jacinta e lá partimos em direcção a Santiago.

Éramos dezassete à partida mas dois rapidamente verificaram que não estavam em condições de continuar, fruto das mazelas acumuladas e optaram, e bem, por regressar a Padrón.

O trajecto era bonito e apesar de alguma chuva e das dores sempre presentes, todos fomos chegando à catedral de Santiago, não sem antes percorrermos os últimos 25 Km.

Fazia muito frio e chovia, mas a sensação de chegar ao fim tudo fez esquecer.

Depois de receber as Compostelas, dirigimo-nos à estação de comboios, onde reagrupámos com os restantes elementos e partimos em direcção a Portugal.

No final era bem visível o cansaço e as mazelas físicas que se notavam no caminhar de todos nós, mas o espírito, esse, mantinha-se bem vivo!

Apesar de apenas sete elementos terem conseguido fazer todo o caminho, todos conseguiram fazer uma boa parte dele e colaboraram para o bem-estar do grupo. Por isso penso que legitimamente todos nos devemos sentir vencedores, pelo espírito de grupo que conseguimos criar e pela ajuda e apoio que fomos prestando uns aos outros.