AVENTURA NOS CAMINHOS DE SANTIAGO

 

... caminho Português a pé

PEREGRINAÇÃO A PÉ A SANTIAGO DE COMPOSTELA

(DE PONTE DE LIMA A SANTIAGO EM SEIS ETAPAS)

 

RELATO DAS JORNADAS

 

Dia anterior ao início da caminhada!

Nunca foi o meu forte traduzir as emoções que me vão na alma, no entanto, vou tentar relatar acontecimentos e sensações que me acompanham nesta minha solitária jornada de mochila às costas pelos Caminhos de Santiago.

Cheguei a Ponte de Lima, graças à boleia dos meus amigos Mário Jorge e Carmo.

Depois do registo no albergue e cumprimentos a um amigo que também ia iniciar o caminho mas em BTT, fui pagar uma promessa à tasca "Fodinhas Quentes" (Pina Jorge a culpa do nome não é minha, levo o talão de caixa para comprovar).


Feitas as despedidas aos meus amigos da boleia, virei-me para uns rojões e um tinto da Bairrada, graças ao convite do Daniel e dos seus amigos (betetistas).
Obrigado malta e boa viagem!

Retiro para descansar e dirijo-me ao Albergue. Portas fechadas às 22h00, mas sono... nem vê-lo!

 

1º Dia - 4 de Junho de 2010

São 5h00 da manhã e começa a agitação dos preparativos de todos os que se iam fazer ao caminho.

Primeiro saiu um grupo de italianos, depois os franceses e a seguir os americanos. Eu estava na expectativa de ver com quem iria sair.

Deu-se um click!
Carreguei a mochila nos costados e saí. A porta fechou-se e senti-me só!
Dei os primeiros passos. Entrei finalmente no meu caminho... E senti paz!

Continuei como sempre só. De repente, sinto a aproximar-se a malta das bikes que passa por mim sempre a acelerar.

São 7h00 da manhã e encontro um café no meio do mato. Tratei logo de tomar um frugal pequeno-almoço que consistiu numa sandes de bom presunto e uma bejeca.

Recomecei a caminhada e notei que o percurso estava consideravelmente mais difícil. A dor alertava-me os sentidos.

Cheguei a Rubiães pelas 10h15. Agora vou descansar até amanhã de madrugada para mais outro dia de caminho até Valença.

Depois de tratado e lavado, dedico-me à verificação e limpeza dos equipamentos, procurando a seguir um local para jantar. A cerca de 1 km, no "Constantino", delicio-me com vinho verde tinto da casa e um frango caseiro. Gostei, simples e saboroso!

Um casal ao lado meteu conversa. São franceses de Nantes, também eles a fazer o seu Caminho. Depois de terem criado 5 filhos chegou a altura de voltarem a viver a sua vida.

Quando chego ao Albergue sou convidado por uns casais Brasileiros a juntar-me a eles e beber um copo de vinho. Adoram vinho Português! Ficamos a beber e falar de vinhos até a hora de deitar.

 

2º Dia - 5 de Junho de 2010

Levantei-me cedo e saí cerca das 6h30. Desta vez tomei a opção de sair sozinho.

Tomei o pequeno-almoço em São Bento da Porta Aberta com um peregrino já conhecido, o Fran de Alicante. Perguntei-lhe se não carimbava a credencial ao que me respondeu que já tinha feito os outros Caminhos e que já não precisava de mais carimbos na vida dele.

Recomeço a viagem e mais além encontro outro conhecido, um rapaz alemão, a quem pergunto se está tudo bem, obtendo uma resposta positiva.

Chego cedo a Valença e cedo vou almoçar.

Depois vou até ao Albergue para ver se consigo enviar as fotos para o Vicente o que só consigo fazer após comprar um adaptador nos chineses.

Começo a sentir o Caminho!

Sinto-me bem sozinho, sinto-me forte e determinado e o corpo reage bem. E até me sabe bem ouvir o silêncio!

 

3º Dia - 6 de Junho de 2010

Chego cedo a Fronteira e fico à espera da Inês e companhia. Demoram a chegar e avisam que estão atrasados o que me leva a decidir a continuar sozinho.

Tui, cidade antiga que continua a causar admiração!

O trilho é bonito mas o pior está na famosa recta da Zona Industrial de O Porriño.

São 5 km debaixo de um Sol abrasador apenas com a vantagem de ser Domingo e por isso não haver tráfego de camiões.

Começo a perder o andamento e sinto os pés a ferver.

Afinal acho que vou ficar em Mós.

Algum tempo depois começam a chegar os conhecidos do costume, os brasileiros, as austríacas, o alemão e também a Inês com os pais, a Dª Helena e o Sr. João. Finalmente conhecemo-nos!

 

4º Dia - 7 de Junho de 2010

Hoje saímos bem cedo!

Passámos por Redondela e depois entrámos num trilho de floresta muito bonito com a ria de Vigo à vista.

Arcade e as suas famosas ostras ficam para trás e entro no rio Verdugo através da famosa Pontesampaio, que foi palco de batalhas sangrentas contra as tropas de Napoleão.

Finalmente chego a Pontevedra e ao seu bem equipado Albergue.

Trato do equipamento e vou beber umas "cañas" ao Gambrinus, que o meu mal é sede!

 

5º Dia - 8 de Junho de 2010

A Inês começa a presentar bolhas nos pés. Não vai ser fácil continuar assim, até porque está a começar a chover.

Esta jornada debaixo de chuva não dá direito a fotos nem grandes recordações e se não fosse o bom material de montanhismo, estava tramado!

O que importa é que fomos à tasca "Muiño" depois de chegarmos a Caldas de Reis e foi uma sinfonia de petiscos e tintol Rioja com 13,5 graus.

Saímos bem tratados e prontos para outro dia!

Volto a reencontrar Fran. Cumprimentamo-nos e ele, na calma que lhe é característica, diz que o Caminho se faz pouco a pouco, caminhando.

Encontro também os italianos que conheci no 1º dia, o Angelo e o Luigi, dois velhotes castiços.

 

6º Dia - 9 de Junho de 2010

Outro dia de chuva que começa durante o pequeno-almoço e não pára de cair!

Decidimos ir até ao Albergue de Teo.

Começo a ficar preocupado com a Inês. Vejo-lhe no rosto o sofrimento causado pelas bolhas nos pés e tento animá-la. Não vai desistir, parece que sai à mãe.

Gosto de pessoas com coragem!

Almoçámos em Padrón onde fizemos a visita turística da ordem e seguimos até Teo.

Depois dos trabalhos habituais à chegada, decidimos ir às compras.

Confeccionámos uma sopa para o jantar e, claro que para a acompanhar, lá consegui desencantar um Rioja tinto "EL COTO", muito razoável para aquecer o corpo depois de mais um dia molhado pela água da chuva.

Última jornada até Santiago!

Percorro os 13 km com calma enquanto revejo tudo o que tinha passado e visto nos últimos dias.

Era a hora de começar a fazer contas ao meu Caminho. Chegámos cedo, fomos buscar a Compostela e de seguida fomos assistir à missa na Catedral.

Daí seguimos para o almoço pois estava na hora de planear o regresso a Portugal.

Seguimos de comboio entre Santiago e Vigo, e depois de Vigo até Valença, onde os pais da Inês tinham o carro.

Disponibilizaram-se a dar-me boleia até Ovar, terminando assim este meu acto de Peregrinar.

Manuel Amaral